Sábado, 07/10/23. Finalmente sei quem sou.
Tempestade! Chuva, granizo, raios e trovões! O mundo cai sobre minha cabeça. A chuva é negra e perfurante, ela vem em capsulas enviadas do horizonte... O granizo cai do meu teto a cada trovoada, o clarão dos raios acontecem bem no chão, nas paredes dos prédios vizinhos, sobre o corpo de crianças destroçadas.
Faz tempo que eu não conheço o Sono, meu mundo interior está tão destroçado como aquele ao meu redor; meu alter ego é esse prédio caído aqui em frente, com seus vãos negros que uma vez foram cômodos, locais do sagrado amor, do delicioso sexo, representam a profundidade das minhas olheiras.
O futuro não existe. Ter nascido alguns quilômetros para o leste fez de mim uma vítima do passado, uma vida descartável. Hoje, na tempestade, dentro do nevoeiro de poeira levantado pela queda de prédios e bombas, tenho a perfeita imagem do que a vida reserva para mim: um mundo difuso, cercado de escombros, onde meus olhos mal conseguem distinguir se ainda tenho mãos, pernas, braços, e os meu ouvidos - ainda bem! - estão surdos pela voz fina que é o meu grito reprimido.